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Filatelia: um passatempo viciante

 

Em 2025 o selo celebra o jubileu de 185 anos
Em 2025 o selo celebra o jubileu de 185 anos. Os selos da figura reflectem bem o papel desempenhado pela arquitectura e pelo design modernos na filatelia

 

Em Maio de 2025, ou seja, já no próximo ano, vão assinalar-se os 185 anos de existência dos pequenos pedaços de papel a que chamamos selos postais. Ou seja, o selo está a celebrar um aniversário muito especial: impresso em lotes em grandes folha desde o início, assume-se como um dos primeiros artigos que foram produzidos em massa. Em Inglaterra, o dia 6 de Maio de 1840 marcou uma nova era para a comunicação de massas, pois foi emitido nesse dia o primeiro selo postal, o famoso “Penny Black”, seguindo-se-lhe, logo dois dias depois, o “Twopenny Blue”, ambos com um retrato da Rainha Vitória, então com 21 anos.

 

A partir daí, sem excepção, foram inúmeros os retratos reais a retratarem o protagonista – num perfil digno do estilo dos imperadores romanos cunhados nas faces das moedas –, para assim adornarem os selos postais do Império Britânico. No caso dos selos ingleses, a tradição manteve-se até hoje: em todos os selos emitidos pelo Royal Mail aparece sempre uma silhueta em miniatura do actual monarca.

 

Tudo começou em 1837, quando o mestre inglês Rowland Hill (1795-1879) publicou um panfleto sobre a reforma do serviço postal que causou grande agitação. Esperava-se que a introdução do selo postal e a taxa fixa do centavo a ele associada reformassem radicalmente o serviço postal na Grã-Bretanha. Não só em Inglaterra, mas também noutros países da época, era costume o destinatário, e não o remetente, pagar a entrega. Os preços baseavam-se na distância percorrida e na quantidade de folhas de papel que compunham a carta. O transporte e a entrega eram um processo tedioso, pois o carteiro tinha de cobrar o dinheiro a cada destinatário. Ocasionalmente, era forçado a sair de mãos a abanar, por exemplo, se a informação chave estivesse simplesmente escrita em código na capa da carta.

 

As propostas de Hill, encarregado da implementação da sua própria reforma, acabaram com estas peculiaridades. Na sua “História Cultural da Era Moderna”, o austríaco Egon Friedell (1878-1938) estabelece um paralelo entre a introdução do “Penny Black” no serviço postal e a vantagem britânica na engenharia mecânica, designadamente na construção de caminhos-de-ferro e na navegação a vapor. “A maioria dos estados alemães”, como afirma Friedell, só optou por estas inovações no final da década de 1840. Em Portugal, o primeiro selo, que veio a entrar em circulação no dia 1 de Julho de 1853 foi desenhado por D. Fernando de Saxe-Coburgo e tinha o perfil da rainha D. Maria II, sua esposa.

 

Em 1840, foi emitido o primeiro selo postal: o famoso “Penny Black”, com um retrato da Rainha Vitória, então com 21 anos
Em 1840, foi emitido o primeiro selo postal: o famoso “Penny Black”, com um retrato da Rainha Vitória, então com 21 anos

 

«Os selos postais são fichas adesivas feitas de papel fino que tendem a assumir a forma de um rectângulo em formato de paisagem ou retrato», afirma-se no dicionário alemão de 1953 “Handwörterbuch des Postwesens” (“Dicionário Conciso do Sistema Postal”), com deliberada naturalidade. Neste manual, os técnicos postais descreveram inúmeras inovações, incluindo a selecção do papel, o revestimento do selo com goma arábica, os processos de impressão e, por último mas não menos importante, a perfuração das folhas, o chamado picote, para facilitar o seu destacamento das folhas – também esta uma invenção britânica. No entanto, existe uma dimensão no selo postal que excede crucialmente o seu dever de prometer uma entrega segura e que raramente aparece nos registos oficiais dos serviços postais, uma dimensão que alimentou a febre da filatelia, a disciplina que se dedica ao estudo e ao coleccionismo de selos postais e materiais relacionados.

 

Tecidos celulares gráficos

 

Mas então o que é que deixa os coleccionadores tão entusiasmados com estes pedaços coloridos de papel? Será esta mistura especial de como um país se apresenta ao mundo exterior, aliada à arte concentrada num espaço mínimo que tanto os fascina? Ou será a relação diametralmente oposta entre as mensagens políticas de uma nação e a sua narrativa, por vezes até representação alegórica? O filósofo polaco contemporâneo Gottfried Gabriel (1943) chama-lhe “funcionalização retórica das qualidades estéticas”.

 

Na verdade, os selos postais podem de facto transformar-se em documentos de estados e regimes que há muito desapareceram. Em 1926, o historiador de arte alemão e pioneiro no campo da iconografia, Aby Warburg (1866-1929), afirmou: “Se todos os documentos se perdessem, uma coleção completa de selos seria suficiente para a reconstrução total da cultura mundial na era tecnológica”. Para o ensaísta e crítico literário alemão Walter Benjamin (1892-1940), que o descreveu metaforicamente em 1928 no seu livro “Einbahnstraße” (“Rua de Sentido Único”), o selo era uma coisa viva: “Os selos estão cheios de números minúsculos, letras minúsculas, folhas e olhos diminutos. São tecidos celulares gráficos.” Ao mesmo tempo, acrescentou: “Os selos são os cartões de visita que os grandes Estados deixam no quarto das crianças”.

 

Na preparação para a exposição “Die Wohnung” (“A Habitação”), da Stuttgart Werkbund, em 1927, Willi Baumeister desenhou um selo que nunca foi realizado (em baixo), pelo que o transformou num selo promocional (em cima). Foto ©Colecção Thomas Edelmann

 

O mundo dos selos comemorativos representou uma realidade virtual primitiva na qual se podia mergulhar e fazer uma viagem de descoberta. Aos amantes de selos, ou filatelistas, o selo prometia aquilo que os coleccionadores não conseguiam alcançar no mundo real: o controlo à escala miniatura. O que, no entanto, implicou uma tarefa de Sísifo, pois estavam sempre com medo de perder o controlo. Os primeiros filatelistas eram “coleccionadores gerais” e perseguiam o obstinado objectivo de adquirir todos os selos postais de todas as nações do mundo. Ora o que já parecia um empreendimento bastante curioso logo após a invenção do selo, seria hoje um empreendimento absolutamente impossível.

 

No entanto, alguns herdeiros ricos e industriais gastaram enormes somas e dedicaram extraordinárias proezas de “caça” para completarrm as suas fantásticas colecções. Após as suas mortes, os seus legados foram leiloados e incorporados em novas colecções. Mais tarde, os colecionadores começaram a concentrar-se em regiões ou temas específicos. E é neles que as administrações postais continuam a apostar com novas ofertas, desde as edições memoriais aos “tête-bêches”, passando pelos blocos, folhas-miniatura e outras especialidades filatelistas.